Trajetória do Grupo de Pesquisa

A criação dos grupos de pesquisa nas universidades como uma nova forma de produção de conhecimento e organização dos espaços de produção científica no país, foi uma política implementada em conseqüência da Lei de Diretrizes e Bases para a Educação (elaborada em 1988 e aprovada em 1996). Esta lei teve grandes impactos na organização e funcionamento das IES, especialmente na implantação de um sistema classificatório em que as instituições de ensino superior se diferenciavam em função de sua capacidade de produzir ciência e formar pesquisadores. Nesta condição, o grupo de pesquisa foi considerado como um espaço privilegiado, principalmente porque aglutinava pesquisadores em temáticas comuns e racionalizava os investimentos em pesquisa. Esta idéia, associada às diferentes formas de fomento – que também se modificaram para financiamentos em projetos mais amplos e de longo prazo – trouxe para todos os pesquisadores e programas de pós-graduação a necessidade urgente de se organizarem na produção de conhecimento de forma integrada, com questões relevantes socialmente, temáticas transversais e não específicas.

Nesta conjuntura, iniciamos a construção dos grupos de pesquisa na PUC – Campinas, dentro do programa de pós-graduação em Psicologia. Todo o início foi realizado em função dos interesses dos pesquisadores e, assim nosso grupo se integrou à temática da Avaliação Psicológica com um enfoque sempre em características sociais e emocionais do desenvolvimento de crianças e adolescentes na perspectiva das intervenções preventivas.

Com o passar do tempo, alguns momentos puderam ser destacados: 1) primeiro – início da década de 1990, o estudo sobre a construção de instrumentos para a avaliação psicológica e procedimentos para adaptação – neste momento focalizamos a adaptação de uma escala para a avaliação de Temperamento, Busca de sensações (padrões de comportamento influenciado pelo funcionamento do metabolismo cerebral) e Auto – Estima (dimensão de auto avaliação resultado da qualidade de relações pessoais) que foram destacados como elementos da constituição da personalidade mais afetos ao desenvolvimento emocional e social de crianças e adolescentes. 2) no segundo momento, a proposta foi a de organizar uma forma de avaliação para a identificação das condições de desenvolvimento de crianças em contextos educativos – geramos um conjunto de atividades e materiais para um processo amplo de avaliação, incluindo ai, processo de avaliação para triagem, dimensões da personalidade, roteiro para discussão sobre o desenvolvimento das crianças por pais e professores, roteiro para avaliação das condições e espaços educativos que promovem oportunidades de desenvolvimento, além de roteiro de entrevistas para avaliar redes de suporte em comunidades. 3) no terceiro momento, buscamos pensar sobre indicadores de risco ao desenvolvimento social e individual, assim como condições de consideradas como protetoras deste mesmo desenvolvimento, ouvindo as pessoas em diferentes papeis e espaços sociais.

Neste percurso, por diferentes momentos, reavaliamos fundamentos teóricos e processos de investigação, como base para uma compreensão da realidade desde a perspectiva totalizadora e tomamos como premissa básica de que as propostas de avaliação e acompanhamento do ser em desenvolvimento, devem se pautar na compreensão marxista de Homem e da realidade social como condições concretas para este desenvolvimento. Ao assumirmos esta perspectiva, contextualizamos o espaço do desenvolvimento humano como determinado pelas condições estruturais da ordem capitalista e, reconfiguramos o estudo e a compreensão de fenômenos psicossociais que afetam e determinam a constituição do ser em desenvolvimento. Neste processo destacamos a necessidade de uma visão crítica do papel e da ação do psicólogo e do conhecimento psicológico. Mas continuamos com as mesmas questões para o estudo e aprofundamento de ações que permitam o desenvolvimento do ser sujeito nesta ordem social e sua ação para mudanças.

Nestes últimos anos, podemos ressaltar dois aspectos fundamentais que marcaram nosso movimento dentro deste grupo de pesquisa: 1º. Um processo crítico de pensar a psicologia e sua contribuição para mudanças radicais no contexto social; e 2º. Uma apropriação, ainda que incipiente, das formulações marxistas que permitem uma compreensão da realidade, a partir de dimensões sequer pensadas no modelo vigente.

O primeiro eixo inclui a transição de um modelo de avaliação e pesquisa quantitativa para qualitativa, incorporando elementos subjetivos nas análises sobre as dimensões estudadas, uma reorganização metodológica de processos de coleta de informações no trabalho do psicólogo dentro da escola, uma transição do eixo central de intervenção do ambiente educativo para o comunitário e vice –versa. Podemos apontar avanços consideráveis na intervenção possível em diferentes espaços, mesmo com inúmeros problemas emergentes e limitações presentes na disponibilidade e dedicação ao trabalho, bem como nas suas conseqüências. Neste processo surgiram várias e amplas questões e temáticas envolvendo o cotidiano da intervenção e análise, como por exemplo, a violência na escola e da escola, o trabalho infantil e suas derivações, as redes de serviço e de apoio às demandas da comunidade, as condições sociais e econômicas de famílias que influenciam as práticas educativas e os estilos de dinâmica de constituição das crianças, o demagogismo das políticas públicas de proteção à criança e adolescente, a ausência de participação popular em espaços de construção da vida cotidiana, a escola como cenário opulento da degradação social imposta pela ordem capitalista que determina a educação como mercadoria – aos que têm como comprá-la, a importância do fortalecimento do professor – um elo que se desgasta nesta corrente sem tomar consciência deste processo, suas causas e conseqüências, a emergência de elementos presentes e ocultos de tantos olhares no desenvolvimento de crianças e na estruturação de suas famílias – a prisão paterna, o crime organizado, o mercado da droga como trabalho infantil, a alienação e o fatalismo como características paralisantes do ser no mundo, dentre outras. Trabalhos decorrentes destes temas têm sido encaminhados para publicação.

No segundo eixo, podemos ressaltar o esforço em compreender a teoria marxista de Homem e de Mundo, suas conseqüências para a produção de uma nova psicologia que se liberta de ser refém de uma sociedade capitalista para ser uma alavanca de construção de uma sociedade socialista. Ao longo destes últimos anos, temos nos apropriado de elementos essenciais e periféricos da teoria marxista e construído uma rede de produção e interlocutores nesta temática. Fazer avançar o conhecimento depende de várias interlocuções.