Trajetória de Pesquisa

A trajetória de um grupo de pesquisa e de suas produções é sempre marcada pela realidade concreta. Ela se coloca como uma ferramenta de estudo, questionamento, compreensão e transformação social e só pode ter sentido se for traduzida em elementos de prática. Por isso, nos últimos anos, em diferentes projetos financiados de forma subseqüente pelo CNPq ( 2000/2002; 2002/2004; 2004/2007; 2007/2010; 2010/2015; 2015/2020) um corpo de conhecimento vem sendo construído para a reflexão maior sobre como compreender as diferentes respostas da maioria da população diante da realidade opressora e violenta, ao mesmo tempo em que se discute o papel que a Psicologia enquanto Ciência e Profissão vem assumindo na realidade brasileira e latino americana e, com certeza, será apresentado em uma obra completa que mostrará de forma integrada os caminhos e as conseqüências deste tempo de produção intelectual, enquanto, ao longo deste processo, diferentes resultados se apresentam à comunidade científica seja sob forma de trabalhos acadêmicos de pesquisa ou artigos, livros e capítulos de livros, nacionais ou mesmo internacionais. Trata-se de um processo difícil e que amadurece com o tempo e com estruturas objetivas.

Com o PNPG 2010-2020 alguns pontos podem ser destacados da política nacional para a pós-graduação brasileira, os quais impactam diretamente o funcionamento deste grupo de pesquisa dentro da PUC-Campinas. O plano para a pós-graduação nos próximos 10 anos indica, claramente, a necessidade de levar a escolhas e priorizações de políticas que devem recobrir diretrizes e fontes de financiamento, além da formação de quadros ( para setores públicos e privados). Isto significa que devemos definir nossa trajetória sem sucumbirmos, mas respondendo a uma conjuntura que se configura e reconfigura, rapidamente. Ainda no PNPG, Gazzola & Fenati ( 2010)[1] apresentam a perspectiva para a pós-graduação brasileira afirmando que as políticas públicas no campo do conhecimento impactam a sociedade, da participação modesta à posição mais destacada internacionalmente. Há uma relação direta entre as tarefas sociais para as quais a ciência tem compromisso e um parque de conhecimento acanhado. A produção científica deve assumir um processo indutor do avanço e do enfrentamento com a questão social. Destacam cinco campo de questões, com as quais quero dialogar neste relatório.

  1. Conhecimento e Sociedade, universidade e sociedade, produção do conhecimento e apropriação pública – metas nacionais de desenvolvimento ( que país queremos? Que contribuição assumimos com a nossa produção científica? Que relações nossa produção tem com a realidade imediata onde se insere a universidade?)
  2. Inovações curriculares e de formação: diversidade, compatibilidade com o conhecimento já produzido, multi – transdisciplinaridade. Abertura da produção integrada do conhecimento. Da disciplinaridade à interdisciplinaridade. O programa de pós-graduação em Psicologia da PUC-Campinas ainda está fincado em uma disciplinaridade, que dificulta a troca com outros saberes, mesmo internos à universidade, como poderia ser com a Educação, Serviço Social, Saúde e a Arquitetura, no caso das produções de nosso grupo.
  3. Consolidação do parque da pós-graduação: superação das desigualdades regionais, programas de adoção interinstitucionais – indicadores de solidariedade. Esta é uma meta importante na política geral de pós-graduação no país, no entanto temos podido contribuir muito pouco por que temos pouca flexibilidade para compormos o regime de carreira e dedicação à pesquisa a cada semestre. Neste triênio ( 2010-2012) os programas de pós estão sendo avaliados em sua capacidade de contribuir para a formação de outros programas ou instituições. Diante desta questão, o plano de trabalho para os próximos dois anos aventa com a possibilidade de uma cooperação interinstitucional nacional e estrangeira, que só se viabilizará segundo condições institucionais específicas.

4. Inserção Internacional – consórcios internacionais estratégicos – América Latina e África de expressão portuguesa. A América Latina e a África estão nas metas de cooperação internacional da atual política brasileira, considerando as condições econômicas e sociais destes países. Desta diretriz derivarão incentivos financeiros para atividades de produção conjunta e formação de estudantes. Por isso, é preciso que saibamos aproveitar Editais e que a universidade nos oportunize estas condições.

  1. Definição estratégica de crescimento – espalhamento não linear das áreas e criação de centros de excelência em ensino e pesquisa no âmbito nacional e internacional. Esta última questão referenciada no documento indica que, sendo localizado na região sudeste no estado de São Paulo, nosso programa não estará dentre as prioridades nacionais para a criação de centros de excelência, cabendo a nós uma participação ousada e efetiva em Editais Públicos para o fortalecimento das redes que temos disponíveis e a manutenção da qualidade do programa, tais como visitas científicas, professores visitantes, etc.

            Estas questões servem para situar a produção científica na conjuntura nacional, mas deve ter impacto também na proposta de trabalho do Grupo de pesquisa, sobretudo no que tange à formação de quadros profissionais do sistema público – servidores da e para a educação e da e para a assistência social.

O GEP Avaliação e Intervenção psicossocial: prevenção, comunidade, libertação”.

A temática abordada pelo grupo tem uma ênfase na prevenção, nos processos de emancipação em contextos comunitários dos quais se destacam os espaços educativos e bairros ou outros agrupamentos de moradia. Tem-se a escola como referencia para os processos de desenvolvimento de crianças e adolescentes e as associações de bairro como espaços de organização comunitária. Importante enfatizar que a área da avaliação psicológica se diferencia para a avaliação e a intervenção de caráter psicossocial, posto que se funda em uma compreensão diferente do processo de desenvolvimento humano e da constituição da subjetividade. A temática da avaliação psicológica se constituiu, historicamente, voltada à adaptação e construção de instrumentos de medidas para o diagnóstico psicológico em diferentes abordagens, no entanto, cada vez mais pautada em fundamentos psicométricos.

No entanto, em uma perspectiva crítica, a avaliação pode ser voltada a uma compreensão psicossocial dos fenômenos destacando-os como ferramenta construída, especialmente, para subsidiar e orientar a atuação profissional em contextos educativos e comunitários.

Tal como se organiza hoje, este grupo de pesquisa visa buscar fundamentos críticos para a construção do conhecimento psicológico, que se foca na compreensão da realidade daqueles que vivem à margem do sistema social ou em condições precárias de vida. A cada produção do grupo de pesquisa estão envolvidos debates e procedimento de avaliação e crítica à relação da psicologia com políticas sociais nas áreas da Educação, Saúde e Assistência.

Tal como inscrito no Diretório de Grupos do CNPq, este grupo mantem os seguintes objetivos, acrescido de alguns novos que estão presentes nas novas políticas para o desenvolvimento científico no país.

  1. Buscar fundamentos críticos para a construção de um conhecimento psicológico comprometido com a realidade brasileira;
  2. Estudar indicadores de desenvolvimento associados a situações de risco, vulnerabilidade e proteção individual, familiar e social;
  3. Avaliar dimensões psicossociais de comunidades e indivíduos em diferentes sistemas;
  4. Estudar de redes de apoio e suporte em ações comunitárias e de movimentos sociais ;
  5. Avaliar e desenvolver referenciais teóricos e práticos para o psicólogo inserido em espaços educativos e comunitários.
  6. Estabelecer redes nacionais e internacionais para o avanço do conhecimento nesta área.

Os problemas e as temáticas de investigação

 

            A formação em Psicologia exige um posicionamento diante da realidade social, por considerar que existe uma estreita relação entre os conteúdos psicológicos e a vida social e individual, portanto a vida política. O compromisso de discutir uma ciência e uma profissão que tenha como fundamento a realidade é, sem sombra de dúvida, apreender esta realidade antes de qualquer coisa.

Quando se analisa de forma reducionista ou equivocada a realidade, o planejamento de intervenções – o exercício profissional – acaba por incorrer em erros também e traz conseqüências importantes para a sociedade como um todo, além da própria profissão. Repetem-se práticas sem conseqüências, forjando o desânimo entre os profissionais que não conseguem ver o resultado do que praticam e mais do que isso não conseguem perceber os diferentes movimentos que são necessários para a conquista de melhores condições de vida e de trabalho para todos. Diante disso, nosso compromisso tem se ampliado para dar conta de discutir e reavaliar as questões da Psicologia como Ciência e Profissão, que estamos construindo hoje:

  1. a) Avaliação e Intervenção psicossocial – uma temática que se consolida dentro dos espaços educativos e comunitários de identificação das categorias incluídas sob a nomenclatura de fenômenos psicossociais e a intervenção por meio de escalas, roteiros de entrevistas e intervenções grupais ( grupos focais) e programas preventivos etc. Esta temática está incluída na disciplina da graduação obrigatória ( ESPEE) com os debates acompanhando a inserção no campo da escola pública e em comunidades de periferia.
  1. b) Estudos sobre Comunidade – esta temática está localizada no contexto do grupo como um espaço importante para o entendimento de diferentes sistemas de desenvolvimento das crianças e suas famílias. As comunidades que estudamos têm características diferentes daquelas vividas pelos estudantes e, conhecer estes espaços é trazer para a análise da realidade o outro lado da vida não percebido pela prática psicológica. Esta temática é abrangida na disciplina eletiva do Programa de Pós-Graduação visando a discussão da Psicologia Comunitária e de programas de prevenção nesta área de atuação.
  1. c) Sujeito e Libertação: esta temática tem nos remetido à discussão da categoria Consciência, Alienação, Fatalismo e as formas de avaliar os enfrentamento pessoal e grupal nas condições de vida das camadas populares, tanto quanto o processos de fortalecimento individual e coletivo nos espaços onde atuamos. Esta é uma temática que atravessa as disciplinas especialmente quando se discute o papel do psicólogo e seu compromisso com a emancipação pessoal e política, focalizando a Psicologia Social da Libertação de Ignácio Martín-Baró e seus seguidores na América Latina.
  1. d) Psicologia Crítica – trata-se de uma discussão, que passa pela crítica à psicologia como ciência burguesa e procurando uma alternativa para seu compromisso com as camadas populares e suas relações com movimentos sociais e políticas públicas. Um grupo de estudos tem esta finalidade de debater a alternativa à psicologia hegemônica, conservadora, assim também como um método de conceber o mundo, o humano e a realidade que forja as pesquisas nesta abordagem, sistematizando especialmente as produções da Psicologia Crítica Alemã e as contribuições advindas de seus seguidores nos Estados Unidos, Dinamarca, Grécia e na Inglaterra.

e)         Psicologia Escolar e Prevenção: esta temática é a que acumula a trajetória do grupo desde seu início no principal contexto de intervenção profissional – a proposta de intervenção preventiva no contexto educativo. Concretiza-se, no plano do ensino pela disciplina de Estágio Supervisionado em Psicologia Escolar e Educação no 9º.e 10º semestres da formação básica. Além disso, uma disciplina eletiva da Pós-graduação é responsável para uma avaliação histórica da área e uma análise das perspectivas para a produção de conhecimento e a intervenção profissional neste campo.

[1] Gazzola, A. L.A. & Fenati,R (2010) A pós-graduação brasileira no Horizonte de 2020. PNPG. Brasil.